Todo dia, às oito da noite, o telefone toca no quarto do hospital. Do outro lado, um menino de dez anos pergunta quando o vô volta.
E o vô responde o que responde há semanas: tô indo, filho.
O menino sabe que o avô se machucou na estrada, voltando do trabalho. O que ele não sabe é que isso levou as duas pernas do vô.
E tem a parte que quase ninguém sabe: o que sobrou das pernas não está sarando, e enquanto o tratamento completo não começa, o quadro piora, com risco de perder ainda mais.
Ele tem 65 anos. Foi motorista por trinta anos, buscando gente na estrada de madrugada. E criou esse neto desde pequeno: era ele que levava na escola, ele que ensinou o menino a andar de bicicleta.
Agora é a esposa que dá conta de tudo. Passa a manhã com ele, corre pra casa porque o menino não pode ficar sozinho, e no dia seguinte começa de novo. Faz semanas.
O tratamento que recupera as pernas existe. O que não existe é o dinheiro: custa muito além da aposentadoria de motorista. Eles já venderam o que tinha em casa, até a aliança dela. Não cobriu nem a metade.
Enquanto a conta não fecha, ele faz a parte dele: todo dia, antes do café, levanta o braço, força o tronco e segura o próprio peso até tremer. Quem passou trinta anos socorrendo os outros não aprendeu a desistir.
Hoje, às oito da noite, o telefone vai tocar de novo. Pra esse tô indo virar verdade, falta o que a família sozinha não alcança.
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